quinta-feira, 4 de junho de 2009

no sebo ideal


Fomos todos visitar o Carlos Mônaco, há algumas semanas, na livraria Ideal, próxima à rodoviária de Niterói, quase ao lado da redação do jornal O Fluminense. Alguns de nós já conheciam o lugar; no ano passado, eu e Vanessa conversamos com Mônaco sobre a Biblioteca de Niterói, cujo acervo ele conhece bem, pois tem grande interesse em temas relacionados à memória fluminense; eu, aliás, há muitos anos imploro por descontos no sebo mais antigo da cidade; Iara o conhece dos chás esporádicos oferecidos pelos membros da Academia Fluminense de Letras – da qual ele faz parte. Todos nós, entretanto, já ouvimos falar do Carlos Mônaco, por um motivo ou por outro.


Meio envergonhados e sem muita ideia de como proceder, chegamos à livraria Ideal, na rua Visconde de Itaboraí, por volta das dez da manhã. Iara havia feito o contato, e o sr. Mônaco nos recebeu calorosamente, embora um pouco equivocado em relação ao motivo da “entrevista”: na verdade, ele realmente pensou que se tratava de uma entrevista; a todo momento nos perguntava “estão gravando isso” ou dizia “anotem aí o que eu falei, é importante”. Carlos Mônaco passa parte do dia conversando com os conhecidos do bairro, aboletado numa cadeira de plástico à beira do “Calçadão da Cultura”, devidamente sinalizado num mosaico de pedras portuguesas, à direita de sua loja. Diversas vezes interrompeu o papo para cumprimentar conhecidos, que ele apresentava como o jornalista X, do qual já devíamos ter ouvido falar, ou o poeta Y, aquele dos decassílabos perfeitos e que tanto fizera sucesso há não muito tempo – vinte, trinta anos apenas. E a nós também apresentava, sempre se desculpando pelo lapso em confundir nosso curso – que definitivamente não era o de jornalismo.


“O que vocês querem saber”, perguntou. Iara explicou o motivo de nossa presença, identificado-nos como alunos da disciplina Desenvolvimento de coleções. Queríamos saber como ele havia montado seu acervo, e voltamos setenta anos na história de Niterói para conhecer Silvestre Mônaco, que inaugurou a livraria, em outro local, onde vendia revistas e jornais. Uma vez instalado na rua Visconde de Itaboraí, passou a vender, além de artigos de papelaria, livros – e livros usados. Como todo livreiro de sebo, adquiriam coleções particulares, geralmente de parentes de um bibliófilo falecido ou de alguém apenas querendo espaço. Comprava-se livros a quilo também, dependendo do material – daí essa maravilha que conhecemos como saldo.


Ouvimos atentamente a bonita estória da livraria Ideal. Silvestre Mônaco virou nome de rua em Niterói, batiza escolas e bibliotecas pela cidade e criou uma tradição mantida pela família: seu neto hoje também cuida dos livros, e seus bisnetos vez ou outra visitam a loja, escondendo-se entre as estantes atulhadas. Mônaco, o filho, tocou o negócio após a morte do pai, e seu grande interesse pelas cidades do norte fluminense fez com que reunisse farto material sobre o tema, sobretudo Niterói. Não tão recentemente, “doou” à BCG seu acervo de memória fluminense. Dizemos doou, entre aspas, porque o acervo está no prédio da biblioteca central em regime de comodato, ou seja, ele ainda pertence a Mônaco, mas está sob os cuidados de pessoal especializado e disponível ao público, podendo, um dia, ser restituído. Nós conhecemos a (conturbada) estória, e ouvimos dele como e por que resolveu se “desfazer” do acervo. Ninguém teve coragem de corrigi-lo ou questioná-lo a esse respeito, e seguimos em frente.

A livraria Ideal, ao longo de sua história, recebeu muitos convidados ilustres, uma vez que em suas dependências até hoje são realizados eventos culturais, como saraus, lançamentos de livros e longas conversas sobre compra e venda de coleções. Mônaco elencou uma série de notáveis que faziam parte da história da livraria, os quais forçosa e diligentemente íamos anotando no verso de xérox de textos da faculdade. Era uma estória redonda, sem cacos, parecida com as que encontramos em pesquisas no google, e que ele vem repetindo há anos para pesquisadores e jornalistas, e que agora repetia para estudantes de biblioteconomia. Mas houve aqui um problema de comunicação.


É impossível conversar com o sr. Mônaco sem que estejamos ou fiquemos a par, por meio de inúmeras estórias, da trajetória de respeito da livraria Ideal. Fomos preparados, Julia, Raquel, Iara, eu, Deise e Vanessa, para conhecer sua biblioteca particular, e não seu acervo particular – à venda. As “bibliotecas” se confundem; são indissociáveis, e Mônaco parece ser mais fascinado pelos escritores e pelo objeto livro do que pelas linhas que este abriga e o outros escrevinham. Os relatos sobre José Cândido de Carvalho à época do lançamento de seu livro mais famoso, O coronel e o lobisomem, jogando conversa fora, na companhia de outros escritores, livreiros, amigos, cigarros e cafés, à beira do Calçadão da cultura; os acervos de memória fluminense doados a outras instituições, além da UFF, cujas cerimônias de inauguração Mônaco esteve presente; os projetos culturais que a livraria acolhe ou pretende acolher até o fim do ano; sua participação como homenageado no LIHED, e o lançamento do livro que [re]conta a estória de vida do “sebo” Ideal – esses fragmentos, pontuados por cumprimentos aos passantes, lembranças de poetas falecidos e o estabelecimento-relâmpago de preços nos saldos da loja nos fizeram esquecer de nosso verdadeiro escopo.

E meio a contragosto, Mônaco abriu o jogo conosco: não tem mais livros. Já doou seus jornais antigos para hemerotecas da cidade, desfez-se de coleções inteiras (ou entregou-as sob as leis do comodato) – e não tem mais livros. Tem, na verdade, o que considera um pequeno acervo, no apartamento do Fonseca: cerca de mil e quinhentos exemplares sobre – o que mais? – memória fluminense, tema que o atrai mais do que qualquer poema escrito por amigos ou romance mais vendido em sua loja. Não estão catalogados, mas dispostos afetivamente ao longo de estantes que só pudemos imaginar, pois não as vimos. O convite não veio e o pedido para vê-lo não foi feito. Apenas sorriu quando perguntei se os livros estavam onde ele queria que estivessem. Os adquire, aparentemente, sem muito esforço; deu a entender que “tropeça” neles. E do jeito que gosta de doar material, em breve sua biblioteca estará ocupando espaço em algum acervo temático de Niterói. E aí ele iniciará uma nova coleção.


Despediu-se de nós, após duas horas de conversa (apesar de sentir-se e agir como se estivesse numa coletiva), convidando-nos para um cafezinho no bar ao lado; nós nos esquivamos, talvez por pensar que a gentileza era só gentileza mesmo, e que deveríamos recusá-la. Percorremos a loja, mas nada encontramos. Não sabíamos, na verdade, o que procurávamos, e se havia mesmo uma busca em andamento. “Não consegui encontrar nada”, falei, e Mônaco sorriu, bufou e disse “é mesmo? Eu não encontro nada aí há anos. É um sebo, ora, estamos sempre recebendo e nos desfazendo de alguma coisa”. De alguma forma, a livraria se torna o macrocosmo da biblioteca de Mônaco; ele desfaz-se, esporadicamente, de seus acervos, assim como desbasta o material que chega à livraria Ideal: estes para o saldo, aqueles para venda, esses outros para o lixo. Não precisamos ver os livros de Mônaco, enfileirados num apartamento no bairro do Fonseca: ali, na Visconde de Itaboraí, tivemos uma amostra de seu trabalho e de sua vida, bem como a história da cidade e de sua família.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

sal & tal e que tais

tem um restaurante aqui perto da BN onde almoço todos os dias [ou quase todos]. chama “sal & tal”, mas não me deixei medrar pelo trocadalho babaca. antes, almoçava num pé sujo ao lado, mas quando percebi que o arroz de lá era uncle bens e que a TV acabava com a minha digestão, mudei de ares. o único porém do “sal & tal” é que não aceitam débito nem crédito, mas isso eu relevo.

todo dia como a mesma coisa: arroz, feijão, batatas douradas e peito de frango, bem sequinho. há uma variedade interessante de saladas próxima à porta; não ouso me aproximar, no entanto. talvez eu consiga encarar um daqueles pratões com melão, queijo branco, melancia e outras frutas indistintas – talvez. até lá, sigo a dieta da obesidade e da dureza: nada de carne vermelha; nada de queijo amarelo; nada de refrigerantes; mas o álcool fica. lá, no “sal & tal”, esses pratões não estão à venda, e por isso terei que adiar o plano saudável, ou transferi-lo de vez para a concorrência.

o “sal & tal” pertence, pelo que pude apurar, a um casal que não se fala. revezam no caixa e só comem no fim do dia – mas um de cada vez. ele, calvo e de óculos, poucas palavras, desinteressado; ela, magra, alta, cabelo [pintado de] preto, bem preto, nariz afilado, em destaque, alguns sorrisos. os funcionários pouco falam. não há TV no recinto [claro] e o ar-condicionado nem sempre dá vazão – mas dá pro gasto e me deixa comer sossegado. são cerca de 60 mesas dispostas de maneira a caber o máximo de gente possível em sua faina de processar a comida em tempo de voltar para o escritório e continuar a viver uma vidinha bovina. no caixa, a pergunta “sal, bebida”, a conta e o talher [sujo]. há um lambri de pvc no andar de baixo, que sufoca os clientes calorentos [eu], mas no andar de cima dá pra sentar bem na direção do vento frio, o que também esfria a comida. mas eu não ligo.

como “trabalho” [um dia explico as aspas] em meio expediente, processo minha ração em vinte minutos recordes, com olhadas esporádicas para o relógio digital do celular. às vezes, creio que a mulher de cabelos negros deseja me perguntar por que como sempre a mesma coisa todo dia, ou por que nunca bebo. há um senhor de olhar magro, barba por fazer, muito alto, com expressão londrina, que mastiga bocados pequenos com os olhos fixos numa sujeira do outro lado do restaurante; sempre o vejo. e um ator de comerciais que, não sei se temendo ser reconhecido ou outra coisa qualquer, aboleta-se no andar de cima, boné enterrado na cabeça, óculos escuros tortos, e risada discreta, de ar blasé, como quem diz “é, seus merdas, como com vocês, estejam agradecidos”.

poucas vezes presencio grosserias ou reclamações no restaurante. uma vez, alguém cuspiu no prato reclamando “esta merda veio crua”. parecia uma cabeça de peixe. o gerente, concordando com as injúrias, permitiu que o cliente comesse mais cabeças de peixe, mas sem pagar. alegria sinistra nublou a fronte daquele senhor, que não esperava fartar-se com a tal iguaria assim, de graça. um casal bem jovem, acompanhado da mãe do rapaz, fazia pedidos sem olhar para a garçonete. “boa tarde. algo pra beber”? “tem o quê?” “guaraná natural, mate, refrigerante”... “tem quê refrigerante”? “[suspiro] coca, fanta, limão, guaraná...” “tem hula-hula”? “não”. “quais são mesmo os refrigerantes?”
quando levantei, meio puto com o guri, disse-lhe, cutucando de leve seu braço, “com licença”. ele riu e comentou com a menina ao lado “olha... ‘com licença’ [afetado]”. dei-lhe meu olhar “repete queu te quebro” e tudo ficou bem.

o “sal & tal” tem feito de mim um rapaz saudável. e apesar do café detestável e do chá de abacaxi, que parece calda rala de pêssegos, confesso gostar do lugar. isso até achar um outro mais barato, claro.

domingo, 26 de outubro de 2008

menputeço


... e, pro meu desespero, fico em casa num feriadão, sábado à noite, um sério calor primaveril, ouvindo um cantor cover que, embaixo da janela do meu quarto [eu disse EMBAIXO], canta sucessos de outros tempos, do tipo banquinho, violão, tecladinho yamaha com ritmos genéricos e voz modulada, a turba embriagada pedindo BIS! BIS! [FODA-SE O VIZINHO, SÃO VINTE PRA UMA, QUE SE FODA O VIZINHO], as crianças ainda acordadas depedram o restante da decoração do homem-aranha - arquitetada com muito mal-gosto pela mãe do pequeno [maldito] aniversariante -, e às vezes um VALEU GALE-RA irrompe pelo quarto depois de muito inapropriadamente meter o pé na minha porta. estou puto, pensando na minha fala de morador decente indignado, BOA NOITE, QUEM É O RESPONSÁVEL PELA FESTA? É O SENHOR? então:

1) ESCUTA AQUI, SEU FILHODAPUTA, QUASE UMA DA MANHÃ E ESSA PORRA DE FESTA AINDA NÃO ACABOU? NÃO ERA FESTA DE CRIANÇA? SEU FILHO É ALCOÓLATRA?
2) meu nome é ###### e gostaria de pedir que o senhor encerrasse por hoje o festejo. compreendo que é desagradável da minha parte chegar à janela e na frente de seus convidados pedir para que termine a festa, mas...

daí ontem, indo pro rio, após ir à faculdade apenas para descobrir que não precisava ter ido, como eu pensei em fazer, corro ao ouvir o apito de saída da barca, entro na fila em busca de um tiquete e uma galinha [eu disse GALINHA] entra na minha frente e grita DUAS. olho pra ela enfurecido e ela diz me desculpe, respondo NÃO DESCULPO, TAMBÉM ESTOU COM PRESSA E, ASSIM COMO VOCÊ, POSSO PERDER A BARCA, pago, desejo bom-dia e saio lançando fumaça no ar. na volta, em pé diante à saída da embarcação [muito calor], encosto o braço numa caixa presa à parede onde havia uma mangueira de incêndio, um machado ou algum outro apetrecho para combater incêndios, e leio, leio o millôr, e desligo. daí um BABACA DE MERDA começa a batucar, com o celular, incomodando. incomodando. incomodando. incom... PORRA, AMIGÃO, QUAL É O TESÃO DE BATER NESTA MERDA? VOCÊ NÃO VIU QUE ESTÁ ME INCOMODANDO? tiro o braço, e o cara continua com o celular, porque a última palavra foi dele. e nesse instante, agora mesmo, as crianças estão furando todas as bolas penduradas na parede aqui na festa ao lado, e por que essas porras dessas bolas não acabam logo, quantas bolas essa gente comprou? e essas crianças, onde desliga essas crianças?

eu estou puto. quando passar, eu menputeço de novo.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Marin Maniu, poeta romeno

Marin Maniu nasceu em local ignorado, mas os primeiros registros sobre sua existência datam de fins de 1979. Sua entrada no orfanato de Paredes, no interior do Rio de Janeiro, distante 210 quilômetros da capital, deu-se de forma traumática: com o braço direito fraturado e semi-inconsciente, foi encontrado próximo à Santa Casa numa manhã de outubro. Muito machucado, tivera ânsias de vômito ao ser carregado por freiras que profanavam seus corpos ostentando o corpo de cristo pendurado como troféu em volta de seus pescoços gordurosos, as veias das têmporas saltadas como se o sangue estivesse retido em seus olhos injetados. A criança fora acometida de diarréia súbita e fora surrada pelo diácono de plantão por ter sujado toda a sacristia com suas fezes liquefeitas. Grande comoção tomou conta dos outros internos no convento Barnabé, sendo Marin um garoto ruivo, de poucos dentes e completamente selvático, animalesco, comunicando-se com os outros através do puro instinto, aos grunhidos. À noite era possível ouvi-lo arranhar as saídas do dormitório, e pela manhã seguia-se nova surra pois as freiras o descobriam despido a dormir no piso frio o sono dos justos. Submetia-se às seções de tortura diárias com abnegação e sempre lambia as próprias feridas, não gostava de desperdiçar o próprio sangue com aqueles humanos estúpidos, aquelas fêmeas diabólicas. Matou um colega que tentara currá-lo durante o banho, mas sem testemunhas e como nada sentisse, não foi molestado com perguntas, sendo o corpo do menino encontrado com o crânio rachado sob um chuveiro de água fervente, a pele inflamada, o ralo tragando a água rubra e espessa despejada pelo chuveiro e misturada aos despojos da criança. Marin Maniu era chamado assim porque eram as únicas palavras que conseguia balbuciar e que com algum aproveitamento eram entendidas pelos seus interlocutores, e assim ficou sendo conhecido no orfanato. O braço quebrado nunca se recuperaria por completo e Marin arrastava-se pelo jardim como pássaro ferido, o braço pendido ao largo, morto, apenas fazendo figuração. Parecia desequilibrá-lo aquele braço inútil, que não se dobrava pela deficiência da cicatrização dos ossos do cotovelo. Era feio, hostil, estranho, e jamais seria adotado. O zelador do orfanato às vezes o observava ao banho por uma fresta próxima aos armários dos professores, nutrindo, alimentando sonhos indizíveis incentivados pela nudez do garoto. Ao contrário do que se poderia esperar, adorava a água e tomava longas duchas, inclusive à noite, quando conseguia escapar da vigilância das freiras e esquivar-se até o vestiário. Lembrava-se da estranha calma que lhe invadira ao esmagar contra a parede a cabeça do colega, o som oco que ouvira e os olhos vidrados de sua primeira vítima por instantes o apresentou ao gozo que perseguiria pelo resto da vida.

domingo, 12 de outubro de 2008

encontro marcado

sexta-feira última, acordei disposto: vamos sair. saltei da cama, arrastei-me pela casa e uma chuveirada às pressas não curou o mau humor. então lentamente estendi o lençol sujo sobre a cama desfeita e principiei a dar formas mais civilizadas às pregas da roupa - também suja - queu vestiria durante todo o dia. então no espelho, encarei o rosto escanhoado, admirei com falsa curiosidade os buracos na pele repuxada e com a tesoura quase cega podei sem dó um fiapo de cabelo que insistia em encaracolar na testa, já suada pela demora do ritual. lembrei da hora, apanhei os livros que decidi ler ao longo da tediosa aula que mesperava e saí, ainda devagar, observando a sola do tênis soltar-se.

dormi a caminho da faculdade e alguns sonhos da noite anterior voltaram fracos, sem convicção; logo os esqueci. deles só terei notícias quando acontecerem - pois eles acontecem, manifestam-se de forma trivial e quase sempre revelam ocorrências prosaicas, indignas de nota. um dia, enquanto tomava café num restaurante, anos atrás, tive meu momento proustiano ao erguer do pires a xícara fumegante. mas enquanto esperava que toda minha vida passasse num filme ruim, a lembrança de um casaco de couro e cabelos louros cacheados foi tudo o que de interessante eu vira antes e agora revia de relance, na gargalhada repentina de uma mulher na mesa ao lado, sem entender como era capaz de vaticínios tão estúpidos ou mundanos.

as sacudidas ostensivas do ônibus sempre me acordam próximo ao meu ponto de desembarque. aguardo com paciência que os outros passageiros saltem, antes queu me levante. observo a todos, inclusive as bundas, os cabelos, os peitos mais ou menos generosos, armados e convidativos sob grossos casacos de lã e sustentados por discretos arames e alças de silicone, as coxas grossas, a saliência dos braços eventualmente desnudos. desço e sigo a mulher que não consegui ver direito durante a viagem. emparelho com ela a uma distância segura, que me garanta uma imagem de cidadão apenas, afastando a possibilidade de alguma patologia motivar minhas ações [isso daria um conto, se já não existisse um a respeito]. uma longa caminhada até à faculdade.

peço um café depois do bom-dia, brinco, cato umas moedas e sento. na mesa de plástico, o copinho de plástico a minha frente aos poucos se retorce, deformando-se, discreto, com o vapor da bebida. lembro [novamente numa desesperada tentativa de buscar tempo perdido] das noites chuvosas nos bares da praça, em que para completar ou incrementar uma conversa pedíamos um conhaque e mais uma cerveja, por favor; enquanto a tulipa suava, o copo embaçava, e o choque térmico nas gargantas e nas mentes garantia a continuidade do papo. pensava nos últimos anos e nas próximas horas, aproveitando os minutos que restavam antes do início da aula para folhear o livro da vez. algo ao longe, ou próximo demais, interrompia vez ou outra a leitura; novamente aquelas bundas e peitos e coxas que lá distante, na subida da rampa ou na curva do jardim desviavam a minha atenção; ou o martelar incessante dos operários que reformavam o velho casarão do campus, ou um celular cujo toque ridículo fazia desejar os anos oitenta de volta.

no canto da sala, eu mencolhia atrás de algum colega mais diligente e lia as páginas recolhidas nos sebos da cidade. pelo canto do olho observava - com perdão do lugar-comum - com que propriedade a luz vinda da janela do fundo refletia a pele branca de uma das alunas, cujo cabelo negro e comprido não me permitia divisar seu rosto; restava admirar as mãos, e a tenacidade com que examinava um livro queu achara num bazar. eram habilidosas, as mãos; torci em meu íntimo para que ela aspirasse o aroma de outros tempos que a velha brochura emanava. às vezes algo chegava até mim vindo da senhora risonha que tentava nos distrair naquela manhã, quebrando totalmente o encanto que então mentretinha. em certas oportunidades dirigia-se a mim como seu estivesse ali com os outros, e não absorto, fora do corpo, preso no passado, ao queu concordava apenas por solidariedade, sem dar ouvidos à pergunta.

três, quatro horas no futuro, eu pensava na estranha luminosidade que a lâmpada no teto despejava sobre minha mesa. o ar-condicionado zumbia numa frequência quase inaudita, mas acostumado com os sons da biblioteca, a mim parecia uma quase canção de ninar. eu esperava pelos pedidos e procurava entender o que os outros usuários liam nas telas opacas das máquinas de microfilme. no entorno, homens muito velhos debruçavam-se sobre jornais centenários e em seu rosto era possível flagrar, quando o exame era atento, algum esgar de felicidade logo refreado pela continuidade da pesquisa - a qual, quem sabe, revelaria mais novidades, até mais interessantes que aquelas de então. as jovens desfilavam em casacos felpudos ou em decotes justos pela sala mal iluminada e tentava encará-las com meu melhor ar de normalidade. escrevinhava minhas anotações, fazia íntimas descobertas, lia material que não competia e subia alguns andares, quando o sono era intolerável, para alcançar mais café. os colegas de trabalho estavam imersos em caracteres despojados cuja normalização eles perseveravam em empreender, recortados pelo burburinho que vinha da copa lá pela hora do almoço. nos elevadores havia uma mal-disfarçada curiosidade pelos crachás que trazíamos pendurados em volta do pescoço, mas nenhuma preocupação em de fato conhecer o outro, apenas um comentário impessoal sobre o tempo, um lembrete sobre a assembléia e a expectativa sobre algum feriado iminente.

às sete da noite, despedindo-me, atravessei a rua, caminhei lentamente pela cinelândia e fingi não reconhecer alguns conhecidos que bebiam seu chope num dos bares ali perto. perambulei pelo quarteirão à procura de outros rostos, evitando o olhar dos mendigos, indignado com os saudáveis namorados sorrindo no café. uns caras desdentados, da minha idade, vendiam miçangas na calçada e faziam tranças e adornavam com penduricalhos os cabelos das duas turistas que, sentadas no chão, as pernas cruzadas, conversavam numa língua queu não entendi. as ruas estava cheias, os bares apinhados, muitas mesas no entorno e o cheiro de bebida choca já recendia pela rua do passeio. na esquina, em frente ao conservatório perguntei boa-noite, meu velho, essa cerveja está gelada, correto; claro, chefe, tudo que quiser. era mentira, mas em frente ao teatro, sozinho, mais vinte minutos à frente no tempo, já mesquecia de tudo e circulava pelas ruas da lapa sem rumo, até mencher e recolher-me por ora.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Bandejão: um barato

Dia desses, eu sozinho a um canto do bandejão mascando minha ração universitária, pasmei: uma barata monumental a correr em disparada por entre as pernas e as pernas das mesas. Alguns outros estudantes tentaram matá-la, alguns fizeram cara de nojo, as mulheres – nem todas, pois muitas não ligam e põe-se a mascar sossegadas sua ração – as mulheres soltaram gritinhos e os homens – nem todos, pois alguns morrem de medo de barata – os homens soltaram piadinhas, acompanhando com o olhar a fuga do inseto. Ficou a dúvida: o animal havia escapado de algum bueiro nas proximidades do bandejão? Teria vindo da cozinha, pulando intrépido do panelão de feijão preto com seus grandes caroços? Ou estava apenas de passagem, indo se juntar aos seus semelhantes no banheiro contíguo ao prédio onde fingíamos nos alimentar? Ficou a dúvida e o asco.

Eu, que não como o feijão do reitor, senti-me mais tranqüilo. Agora todos lembraram do gosto da ração. Vi muita gente entregar suas bandejas ainda cheias de comida. E esses restos de comida ainda alimentarão muitas outras baratas, de modo que o melhor a se fazer é comer - não as baratas, a comida. É certo que pedacinhos de carne mais escuros ou menos resistentes passarão facilmente a nossos olhos por baratas; fios de cabelo no arroz serão consideradas anteninhas perdidas de alguma barata agora desnorteada; nunca mais se comerá uma farofa sem se suspeitar de que aquele pedaço fino de toucinho seja uma pata cabeluda, de que aquele temperinho mais escuro seja a carapa de uma delas, as baratas. E o cheiro dos talheres, será sempre cheiro – de barata.

Isso certamente diminuirá ainda mais o preço da comida. No dia em que avistarmos uma lacraia se arrastando pelo bandejão; uma caranguejeira, um rato, um gambá. Uma cobra. E quando dividirmos o salão com galinhas, teremos pena em comê-las depois, ensopadas, mas comeremos, pois todos gostam de frango (e lá é tão difícil ter frango). As vacas tentarão invadir o prédio, mas uma delas ficará entalada na roleta logo na entrada e morrerá, figurando como prato bovino da semana. Ficaremos todos muito felizes com a alcatra, a fraldinha, o acém, o lagarto, o mocotó, a rabada, e esqueceremos o acontecido. Enquanto isso as demais vacas pastarão o dia inteiro, espalhadas pelo campus, e isso aliviará nossa culpa. E comeremos carne de vaca entalada até a formatura.

Quanto aos demais animais. Os porcos, por exemplo. Sabe-se que, na verdade, são bichos muito limpos e, ademais, extremamente inteligentes. Mais que os cães. Só que os porcos também não passarão na roleta do bandejão. Só os leitõezinhos conseguiriam realizar a façanha. De modo que comeremos leitão assado até a formatura, mas teremos que aturar o chororô dos pais dos leitõezinhos também até a formatura. A não ser que passemos a comer os cães no lugar dos porcos. Só que há mais leitões do que cães espalhados pelo campus. Sorte destes últimos.

Pensei em tudo isso, mas acho que só teremos baratas por aqui, e por um longo tempo ainda. Até as vacas e os porcos começarem a aparecer, lá se vão anos e anos de embutidos. Mas não ligo. Contanto que as baratas contribuam para o decréscimo dos preços. Se você é o que você come, não quero ter um aspecto pré-estabelecido pelos nutricionistas da faculdade. Sim, temos nutricionistas. Perguntarei a eles o que acham das baratas. Se em vários países asiáticos vários asiáticos consomem insetos asiáticos, por que não passaríamos a consumir também nossos insetos? Serão menos nutritivos os insetos latino-americanos? Ou os nutricionistas esperam a chegada das vacas e dos porcos?

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Carnaval é meu pau na sua mão

Vejo aqueles carros alegóricos imensos se preparando para entrar na avenida e penso qual deles vai pegar fogo ou, no mínimo, quebrar. Claro, o carnaval é ótima desculpa pra encher a cara e zanzar por aí, sem ter o que fazer, mexer com a mulher dos outros e dar uma de pau d’água, vestir uns acessórios ridículos pra entrar no espírito. O carnaval no Rio me comove, a gente vê famílias inteiras (e duras) percorrendo as ruas do centro atrás de bloquinhos ingênuos, botando no cu do trocador ou fazendo piadas homofóbicas. É bonito, meus amigos, e eu confesso que caguei pra bandidagem que aproveita o porre generalizado pra faturar algum. O chato é que nessa época do ano, sendo gringo ou autóctone, todo mundo dança.

Eu dancei em outras bandas e fui curtir o sol e a praia limpinha de Rio das Ostras. Na saída para a rodoviária abstraí a previsão do tempo e mesmo embaixo de chuva pus a bolsa sob o braço (dois livros, mp3, garrafa de vodka, máquina digital e uns panos sujos) e me mandei. Memorável a corrida que pratiquei do antigo prédio do Jornal do Brasil até a Novo Rio, a roupa colando no corpo e o ônibus, sem ar-condicionado, atrasando quase uma hora – o que tornou meu cooper noturno inútil. Umas seis horas de viagem e após uma ligeira discussão entre amigos (eu ia bater, juro), saltamos no ponto errado, o que me obrigou a mais meia hora de chão, a pé, até a casa de nossos anfitriões.

O céu limpou de repente, o mar estava generoso, nem muito revolto nem monótono demais, ideal para jacarés e caixotes. Um quiosque próximo matou minha sede de itaipavas e minha fome de peixe frito. Garanti até um bronzeado discreto, bem diferente do anterior, que me riscou feito zebra escarlate. À noite o tempo virou e lá fomos para o centro de Rio das Ostras, sob garoa renitente, assistir à febre do créu manifestando-se a cada esquina. Na esteira, avistei uma moça levando um soco na têmpora de algum namorado valentão, e me acovardei, pensando em voz alta “se ele fizer isso novamente, eu vou lá” – para depois, no íntimo, respirar aliviado a retirada do casal. No banheiro do quiosque, a tristeza do absorvente usado atirado ao chão na pressa da folia, e no tira-gosto o osso do frango a passarinho, desfigurado pela fritura indiscriminada, a rasgar a mucosa da boca queu anestesiei com rum mais tarde.

Descobri a velhice no dia seguinte, com a chegada de novos hóspedes, jovens e grosseiros. Nos dias que se seguiram, agüentei peidos, arrotos, cagadas e trocadilhos infantis sem perder a pose. Vez ou outra alguém me respondia “meu pau na sua mão”, até que desisti de fazer qualquer pergunta que proporcionasse rima. Dormir era inútil, pois os roncos e as risadas, além da impossibilidade de folhear o Borges ou o Wolff, tolhiam meu cansaço e me faziam torcer para que o sol aparecesse na manhã próxima. Mas em cinco dias de “folia” foram dois os dias ensolarados (ou mais ou menos ensolarados), o que não me impediu de entrar no mar em três ocasiões. Numa das noites, a ida à Barra de São João parecia promissora. Mas sabem, foi triste a espera de meia hora em cada quiosque em que parava para comprar uma latinha de cerveja. Senti saudades dos ambulantes, proibidos de atuar na região. Houve um princípio de confusão, cujo motivo não pude identificar, e forças superiores, enfim, obrigaram-me à retirada poucas horas depois.

O churrasco foi lindo. Enquanto uns comiam para se fartar, temendo comer menos que os outros, as latinhas de itaipava evaporavam mesmo quentes - ou talvez por isso mesmo. Como só tomo cerveja gelada, houve prejuízo em meu teor alcoólico, e precisei tomar umas doses de vodka para relaxar e torcer para que tudo chegasse logo ao fim. Ainda uns arrotos, cigarros boiando no fundo do vaso cheio de mijo, a insistência em pôr o pau na minha mão, ou em algum orifício de minha anatomia, à força dos primevos trocadilhos, além da pura falta do santo simancol fizeram-me desejar ardentemente que o carnaval se fosse e queu pudesse retornar o mais breve possível ao lar, a fim de cagar em paz em meu vaso deveras mais limpinho, no silêncio de minha literatura de banheiro.